Sobre dois pés: o ato revolucionário de andar São Paulo Melhor

Enquanto no Brasil bicicleta como meio de transporte ainda é tema controverso em pleno 2016 , há um certo glamour em ser ciclista urbano. Afinal, a bicicleta simboliza cidades modernas cujo o planejamento  é mais bem resolvido. Mas além da bicicleta e da mais que urgente ampliação, modernização e barateamento das redes de transporte público, é preciso encontrar espaço dentro da agenda da mobilidade urbana para quem deseja simplesmente andar…

Se você já leu Orgulho e Preconceito, de Jane Austen, deve se lembrar que a protagonista Elizabeth Bennet adora andar, num tempo em que atividades físicas eram de mau tom para as moçoilas. Numa das passagens, Lizzy anda três milhas para visitar a irmã doente e recebe o escárnio de algumas damas bem nascidas. Andar era portanto uma das atividades subversivas da personagem, que desafiava os papeis de gênero da época.

Ainda que em outros tempos e contexto, experimente dizer a alguém que você chegou andando ou que você vai a um lugar a pé e há chances de você se sentir a própria personagem de Austen. A menos que seu percurso seja inferior a 200 metros, é bem provável que em tais circunstâncias você receba um olhar condescendente, de quase pena. E isso mesmo depois de sabermos, por meio de inúmeros estudos, que andar faz um bem enorme à saúde. Por que isso acontece? Que estereótipos e equívocos ainda dificultam a vida de quem é pedestre por opção? A seguir alguns tópicos interessantes, dificuldades e dicas para provocar a discussão ou simplesmente para convidar ao ato cotidiano de andar.

No meio do caminho tinha…

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Uma das coisas mais bacanas para quem anda e usa os mapas do Google é a ferramenta que permite ao pedestre pesquisar o caminho de um lugar a outro. Antes de encarar uma caminhada, é importante saber exatamente quantos quilômetros nos separam de nosso destino. Infelizmente, em muitos casos a ferramenta nos alerta que algumas calçadas podem estar interrompidas ou que o local não é seguro para os pedestres. Quem escolhe desafiar os prognósticos, pode acabar encontrando lugares em que o acesso é privilégio exclusivo dos carros, sem faixas de pedestres, sem calçadas ou com passagens obstruídas. Esses empecilhos além de arriscados são bastante frustrantes. Mas podem servir como um bom incentivo para que se reivindique junto ao poder público a fiscalização da qualidade e da acessibilidade das calçadas, assim como a obrigatoriedade de faixas de pedestre em um número maior de ruas das cidades. Idealmente, deveríamos organizar um mapeamento desses problemas em todas as nossas rotas, já utilizadas ou que se pretende utilizar. Num primeiro momento, comece denunciando o problema à prefeitura e no caso de São Paulo à subprefeitura responsável.

Passo a passo

omron-pedometerAlgumas pessoas precisam de motivação para andar, ser menos sedentárias e se livrar da dependência absoluta do carro. Se este for seu caso, o pequeno investimento em um pedômetro pode ser um bom começo. Um desses instrumentos, em seus modelos mais básicos, pode custar menos de 50 reais e embora não seja muito preciso para atletas ou pessoas que querem saber exatamente a distância que percorrem, é excelente para quem quer apenas contar quantos passos dá. O mais legal é se impor um número mínimo de passos a ser alcançado por dia. Aos poucos, pode ir se elevando essa meta. Se você conseguir envolver mais alguém no ‘jogo’, melhor. Como esses aparelhinhos registram como passo tanto um de poucos centímetros quanto um maior ou em terreno elevado, tende-se a não levá-lo muito a sério. Mesmo assim, a Indiana University apresentou um estudo alguns anos atrás em que os participantes que o utilizavam diminuíram o tempo sentados, se sentiram mais dispostos para atividades físicas e até apresentaram moderada perda de peso. O pedômetro pode ser usado, discretamente, no cós da calça.

Redescobrindo a vizinhança

Em alguns bairros nobres da capital paulistana e em outros mais modestos também, os moradores descem de seus apartamentos de elevador diretamente para suas garagens subterrâneas e de lá seguem para o trabalho ou para atividades cotidianas, sem tomar contato com o entorno de seu bairro. O mesmo padrão de comportamento se aplica às compras, que se resumem ao trajeto da garagem do condomínio aos estacionamentos dos supermercados ou shopping centers. Enquanto isso, essas pessoas perdem a oportunidade de ver de fato onde moram. Desconhecem os pequenos negócios, lojinhas, serviços, assim como as casas, as árvores e flores do caminho. Sem ver isso tudo, ou vendo rapidamente por trás dos vidros do carro, é mais difícil valorizar o espaço público e consequentemente zelar por ele. Mesmo que por simples omissão, permite-se assim a sua degradação. Cidades que são amigáveis aos pedestres, como Copenhagen, por exemplo, descobriram que gente transitando na rua estimula o embelezamento das cidades e aumenta o respeito por elas. Saia andando por aí e veja o que você nunca viu!

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Para encorajar as crianças

Nos Estados Unidos, a obesidade infantil se tornou um problema de saúde pública. Muito disso se deve à má alimentação, mas também à vida sedentária e às horas passadas em frente a videogames. Por aqui, estamos indo na mesma rota, por isso é tão importante estimular nas crianças o hábito de caminhar (veja abaixo a iniciativa Carona a pé) desde cedo. Quem tem filhos pequenos sabe o quanto esta tarefa pode ser difícil, mesmo em curtas distâncias. Duas dicas são super válidas aos pais que se recusam a ceder a chantagens…kid-1241817_640

Primeiro, respeite o ritmo da criança, ela tem pernas mais curtas que as suas, não espere que ela caminhe na mesma velocidade que você. Ninguém gosta de ser arrastado pelas ruas; caminhar tem de ser uma experiência tranquila. Segundo: invente um jogo. Vence quem encontrar no caminho um determinado número de coisas ou pessoas. Faça uma lista. Por exemplo, duas pessoas usando roupa azul, uma pessoa andando com um cachorro preto, uma árvore muito alta, um carro verde… Enfim, as possibilidades são inúmeras. Mas tente tarefas que são mais fáceis de ser cumpridas na sua região específica, para não melar o jogo.

Estilo e praticidade

Por que ‘caminhar’ em roupas atléticas , trajando roupa de banho no calçadão da praia ou mesmo grudado à TV sobre a esteira da academia de ginástica é mais cool do que andar nove quadras para ir ao dentista? Ou um quilômetro até o metrô mais próximo? Você pode até caminhar como esporte, mas isso não impede incorporar o hábito de andar à sua rotina. Em grandes cidades americanas e europeias é comum que as mulheres usem tênis apropriados para caminhadas que serão substituídos pelo sapato de salto alto assim que chegarem ao trabalho. Os homens podem certamente aderir à ideia, levando o sapato social. Mais e mais as marcas de tênis têm se aperfeiçoado em criar modelos especificamente para quem anda. A americana Skechers tem ganhado uma legião de fãs fieis com seu Go Walk, por exemplo, uma linha para quem caminha e que já pode ser comprada no Brasil. A ideia deu tão certo que  lançaram outros modelos, sempre priorizando o conforto do caminhante. Seja qual for a marca, lembre-se de escolher sapatos confortáveis, com bom suporte para o calcanhar e solado com amortecimento de impacto .

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Segurança nas ruas

Quem vive em cidades grandes brasileiras, com alto nível de violência, cita a insegurança como impedimento para andar. Obviamente, é preciso investigar o grau de segurança de seu trajeto e se for percorrê-lo à noite é aconselhável ter companhia. Mas como já foi dito antes, ocupar sua rua, seu bairro, torná-lo um lugar de interação com os vizinhos e pequenos comerciantes pode ser, em si, uma forma de melhorar a segurança. Comunidades bem cuidadas, ‘abraçadas’ por seus moradores, são em geral mais pacíficas e humanas.

Escolha a trilha sonora

Quem já percorre a cidade sobre dois pés, deve ter notado que andando podemos ter grandes ideias. Uma outra boa forma de aproveitar esse tempo é ouvir música. Escolha a trilha sonora mais adequada a cada percurso ou experimente diferentes estilos até sentir o que melhor descreve musicalmente o seu caminho. É divertido e torna qualquer percurso mais agradável. (Já tem uma trilha perfeita e quer dividir com a gente? É só mandar!)

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Sinta no bolso, não nas costas

Andar pela cidade sempre que possível tem várias vantagens, mas não se pode esquecer que é também uma forma de economizar. Para ter uma melhor ideia disso, tente guardar o dinheiro do táxi, do ônibus ou do combustível sempre que se locomover a pé. Ao final, faça algo legal com o que poupar,ou doe pra uma instituição de caridade. E lembre-se de não carregar peso nas suas caminhadas. Se for necessário, escolha com cuidado uma mochila que não prejudique sua coluna nem sua postura.

Tempo é dinheiro?

Esqueça essa máxima capitalista. Tempo é qualidade de vida e saúde. Se adotar a caminhada para realizar pelo menos uma das suas atividades cotidianas, programe-se bem. Saia mais cedo para chegar com folga a seus compromissos, andando no seu ritmo. É mais saudável despender seu tempo andando do que em engarrafamentos. E nunca, nunca passe textos no celular enquanto anda. É perigoso mesmo!

Bora andar…

Carona a pé

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FOTO: ARQUIVO DO CARONA A PÉ

O projeto foi iniciativa de uma professora do ensino fundamental, Carolina Padilha, do colégio paulistano Equipe. Ela percebeu que vários alunos faziam trajeto parecido ao seu de casa para a escola e pensou que talvez pudessem ir juntos algumas vezes. Ela também imaginou que o padrão se repetisse, ou seja, outros adultos, pais ou professores poderiam compartilhar a caminhada até a escola, acompanhados de um grupo pequeno de alunos. Nasceu assim o Carona a pé, um serviço comunitário gratuito que pode ser implantado em qualquer escola do país, basta que a comunidade escolar tenha interesse. Os participantes usam um crachá que identifica o grupo . Pais, professores e funcionários das escolas se revezam como “condutores” dos grupos. O movimento ajuda assim a diminuir o tráfego nas localidades escolares, reforça os laços entre os membros da comunidade escolar e faz com que a criança tenha mais contato com a cidade. Para saber mais e se engajar acesse http://caronaape.com.br/

Este post é do site foi postado originalmente no blog Horizonte Sustentável,  que fala de sustentabilidade e mobilidade urbana. Confira!

 


Meu nome é Patrícia Ribeiro. Sou formada pela Faculdade Cásper Líbero e já trabalhei como editora e repórter em revistas, jornais, sites e em assessoria de imprensa. Adoro contar histórias, sou curiosa e gosto de ouvir as pessoas. Como gosto de viajar, acabei escrevendo muitas reportagens de viagens e turismo e produzi guias de viagem nacionais e internacionais. Adoro a vida cultural da cidade e descobrir lugares novos. Resolvi aliar o que eu gosto do que faço no meu tempo livre neste blog e compartilhar minhas dicas com moradores e visitantes.

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