Um passeio pelo Japão numa visita ao Museu Histórico da Imigração Japonesa Agenda Cultural / História e Arte

Que o bairro da Liberdade é referência como maior reduto da colônia nipônica fora do Japão, todo mundo já sabe. Caminhar pelo bairro é como estar à parte do comum que vemos em São Paulo: observar as lanternas japonesas, as fachadas e jornais nas bancas escritos em ideogramas, os utensílios peculiares, o idioma, a alimentação.

Mas, alguém sabe como foi que tudo isso começou? Por que os japoneses imigraram para o Brasil? Por que escolheram se firmarem na Liberdade? Eu não tinha ideia de nada disso, mas um passeio por pouco mais de duas horas no Museu Histórico da Imigração Japonesa no Brasil respondeu todas essas questões e outros fatos curiosos conheci.

O objetivo do museu hoje é retratar a história vivida pelos imigrantes japoneses, que aportaram no Brasil em 1895, desde as primeiras impressões, dificuldades e, por fim, a consolidação de seus lugares aqui.

Linha do tempo da imigração Foto: Vilma Alcântara

Linha do tempo da imigração
Foto: Vilma Alcântara

O início de tudo

Dividido em três andares, o museu conta, respectivamente, no 7º andar o início de tudo: como o governo brasileiro e japonês negociaram a vinda dos imigrantes para as fazendas de cafés, que andavam sem mão-de-obra, com o Tratado da Amizade. Neste andar, há uma réplica da primeira embarcação, Kasato Maru, com a primeira leva de imigrantes japoneses. E, muito diferente do que retratam, eles não chegaram aqui com quimonos ou hashis nos cabelos, antes mesmo de virem foram orientados de como era nossa cultura, inclusive, sobre vestimentas, ou seja, chegaram prontos para a nova realidade e cultura.

Fotografias e réplicas das cabanas, instrumentos de trabalho, retratam a realidade nas fazendas de café, as condições que foram impostas que era bem diferente quando chegaram aqui.

Instrumentos de trabalho no campo - Foto: Vilma Alcantara

Instrumentos de trabalho no campo –
Foto: Vilma Alcantara

Trabalho no campo

No 8º andar, o enfoque é sobre a contribuição dos imigrantes japoneses na agricultura. Eles introduziram novas plantações, como: chá, rami, junco. E um novo formato de trabalho, o cooperativismo. Ainda nesse espaço, é dedicado ao momento delicado da relação Brasil-Japão com a Segunda Guerra Mundial: censura à língua japonesa e publicações periódicas. Esse corredor é mais escuro e em suas paredes estão vários jornais da época retratando a perseguição aos imigrantes, a censura, porém, ao final dele nos deparamos com um belíssimo e luminoso quadro de ipê amarelo, que é a árvore símbolo do Brasil.

A Imperatriz Mitiko recitou um poema certa vez intitulado “Estrada” sobre sua percepção do Brasil:

“Ao longo daquela longínqua estrada.

Percorrida por vocês, imigrantes.

No caminho difícil e vencido,

Oh! Quantas vezes até agora

Têm os ipês florescidos? ”

Réplica do navio que trouxe os imigrantes japoneses Foto: Vilma Alcântara

Réplica do navio que trouxe os imigrantes japoneses
Foto: Vilma Alcântara

O pós-guerra

Saindo do período obscuro da história, chegamos no 9º andar, aonde o enfoque é sobre os 50 anos pós-guerra. Aqui se revela a consolidação de vez da cultura, as indústrias, produtos, casamentos entre japoneses e brasileiros.

Há também um mural panorâmico do pintor japonês Seiji Togo, que ficara impressionado com as condições difíceis dos imigrantes e sua contribuição “Paisagens do desbravamento dos Imigrantes” (1978) está exposta no 9º andar, onde, infelizmente, seu autor nunca pode ver, pois ele, faleceu dois meses antes da inauguração.

Roupas típicas japonesas Foto: Vilma Alcântara

Roupas típicas japonesas
Foto: Vilma Alcântara

Além das exposições, há totens para assistirem documentários que contam os aspectos da vida e atividades dos imigrantes japoneses e, para os descendentes japoneses poderão identificar suas raízes no terminal no 8º andar, basta digitar o nome do imigrante, que o histórico da partida e chegada aparecerá.

Isso é apenas um pouco de todo material histórico que há no museu.

Façam o passeio com calma, apreciem o cuidado que tiveram em contar histórias, os detalhes de tudo e tenho certeza que depois disso andar pelo bairro da Liberdade vai ser mais interessante ainda.

Site Museu Histórico da Imigração Japonesa Rua São Joaquim, 381 – Liberdade, metrô São Joaquim

Tel.: (11) 3209-5465; De terça a domingo, das 13h30 às 17h00. R$ 10.

Objetos usados pelos imigração no início do século XX Foto: Vilma Alcântara

Objetos usados pelos imigração no início do século XX
Foto: Vilma Alcântara

Museu Histórico da Imigração Japonesa fica na Liberdade Foto: Vilma Alcântara

Museu Histórico da Imigração Japonesa fica na Liberdade
Foto: Vilma Alcântara


Meu nome é Vilma. Sou paulistana e não vivo uma relação de amor e ódio com a cidade: sou uma apaixonada assumida por São Paulo. Formada em Letras (Português e Inglês) pela UNIP, mas sempre trabalhei no meio corporativo. Meu interesse por eventos culturais começou bem cedo. Vizinha do Centro Cultural São Paulo, todos os dias, depois da aula, passava tardes inteiras por ali aproveitando tudo o que podia. Como sou uma pessoa de múltiplos interesses – música, literatura, teatro, cinema, passeios ao ar livre, cultura pop, em geral, e gastar pouco e me divertir muito – logo virei ponto focal entre amigos e colegas de trabalho sobre o que de melhor estava acontecendo na cidade e, aí está uma das outras coisas que adoro: compartilhar conhecimento. Uma outra é criar roteiros: seja de passeios pela cidade, seja para uma viagem de muitos dias. Desejo disseminar o que há acontece na cidade para além dos segundos cadernos.

Comments

  1. Tadeu Silva Says: abril 27, 2017 at 9:52 pm

    Olá, Vilma !
    Não imaginava haver pessoa mais apaixonada e conhecedora dos cantos, encantos e recantos da minha cidade natal, do que eu.
    Aí, do nada, há 40 minutos, “conheço” você.
    O seu Blog é, como eu poderia dizer…..SAMPAstico !
    Amo SAMPA.
    Parabéns.

    • Patrícia Ribeiro Says: abril 27, 2017 at 10:03 pm

      Oi, Tadeu. Obrigada, mas o blog não é da Vilma, ela foi uma colaboradora e não escreve mais. O blog é meu, Patrícia Ribeiro, sou responsável pela escolha do conteúdo, edição e textos do blog, além de promover passeios culturais em São Paulo. Obrigada pelos elogios e continue acompanhando o blog.

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